Terceiro setor: por que as mulheres são maioria?

Já sabemos que as mulheres são maioria e representam 65% das pessoas empregadas nas OSCs. Mas isso acontece de maneira aleatória ou casual? Ou é uma aptidão natural das mulheres às áreas do terceiro setor?

As mulheres são maioria no terceiro setor, na educação, na enfermagem e em atividades relacionadas aos cuidados em geral. De acordo com o levantamento do perfil das OSCs do Brasil, as mulheres representam 93% das/os assistentes sociais, 85% das/os profissionais dedicadas/os ao cuidado de idosos, 94% no que se refere à educação infantil e 95% na área de desenvolvimento infantil.

Por que a divisão de trabalho acontece dessa maneira? Mulheres se preocupam mais com as outras pessoas e com a sociedade?

A história vem de longe. Pode até parecer que é vocação, mas desde que nascemos somos ensinadas a cuidar. Meninas antes mesmo de se entenderem como meninas, ganham bonecas e brinquedos que reproduzem a dimensão da casa. E os meninos ganham brinquedos que reproduzem a dimensão das ruas, do mundo externo. Essa construção social tem também origens morais e psicológicas que fazem parte da nossa história e sociedade. 

Compreender essas estruturas é importante para que possamos de fato contribuir para a melhoria social e ambiental sem reforçar estereótipos que possam contribuir para manutenção de desigualdades, mesmo que não seja nossa intenção.

Do ponto de vista histórico da filantropia

Ainda que o termo filantropia tenha sido revisado e que vá para além da caridade e ações beneficentes, do ponto de vista histórico, ela surge com o objetivo de humanizar as elites e colocá-las em um lugar de cultivo de virtudes morais de pessoas respeitáveis, que sejam capazes de se colocar no lugar dos outros e de proteger instituições relevantes para a sociedade como museus e universidades, dentre outros. Esse tipo de filantropia sempre existiu e a participação de homens era preponderante. Foi somente a partir do século XIX que a representatividade feminina nesse processo começou a ter destaque.

Historiadores e historiadoras que estudam a temática relatam ter havido um processo moral e sentimental que mobilizou mulheres ricas e da classe média na Europa para a filantropia a partir do século XIX. Esse período também foi marcado pelo período de instituição da família patriarcal, da separação entre público e privado, e da divisão sexual do trabalho. Às mulheres cabia o ambiente doméstico e de cuidados com os filhos, filhas e pessoas idosas.

Ampliando a participação e visibilidade em espaços públicos

Esse processo moral que mobilizou as mulheres, trouxe a perspectiva de bondade e caridade e contribuiu para que elas acessassem novas possibilidades de autoconsciência, reflexão e ação para além de suas casas.

A bondade, capacidade de fazer o bem aos outros, era uma virtude sem gênero até então, e passou a ser cada vez mais associada à definição da feminilidade. Ela também passou a projetar uma imagem muito positiva e socialmente valorizada das mulheres.

Além da Europa, na América Latina e Estados Unidos, percebeu-se um envolvimento das mulheres com a filantropia de uma maneira diferente da antiga forma de fazer caridade, que acontecia no interior das famílias ou de forma individualizada. As mulheres se organizavam em associações ou por meio de campanhas de caráter público. Esse movimento ampliou a visibilidade das mulheres em espaços públicos, mesmo que na época fosse mediada por religiosos ou homens de maneira geral.

Dessa forma, a ideologia da domesticidade e a valorização moral das mulheres através dos cuidados e da maternidade passam a ser o pano de fundo para a sua visibilidade pública.

Mas isso aconteceu apenas para as mulheres de classes privilegiadas? Como ficam as mulheres pobres? E o recorte de raça nesse processo?

As diferentes realidades das mulheres

Certamente o envolvimento de mulheres na filantropia e nas causas sociais não é homogêneo e não aconteceu apenas com aquelas que estavam confinadas ao ambiente doméstico e queriam ampliar suas perspectivas. As mulheres de classes sociais menos privilegiadas e que passavam pelas mais diversas necessidades sempre foram ativas nos movimentos sociais e também ampliaram sua participação.

No caso delas, a urgência e a necessidade de garantir condições mínimas para sua sobrevivência e de seus familiares, eram os principais motivadores para a ação. As mulheres negras, por exemplo, sempre estiveram fora do ambiente doméstico, trabalhando, e sua atuação foi essencial em movimentos como o abolicionismo, a luta pelos direitos civis e políticos das mulheres e por uma grande diversidade de causas sociais e culturais.

E o que isso significa hoje?

Trazendo essa perspectiva para o contexto atual, é importante percebermos que a representatividade feminina no setor das OSCs não é casual e possui bases muito arraigadas na nossa sociedade. É maravilhoso que as mulheres sejam maioria ou estejam em representatividade igualitária neste e em tantos outros setores. O que precisamos refletir é sobre como se dá essa participação e questionar se estão sendo mantidos padrões de desigualdade que podem até passar despercebidos.

Para finalizar, aqui vão algumas perguntas para ajudar nesse processo de reflexão:

– Qual o percentual de homens e mulheres na organização? A representatividade das mulheres e homens é igualmente distribuída nos diferentes níveis hierárquicos?

– Na sua organização, mulheres e homens possuem remuneração equivalente para funções similares?

– Como se dá a representatividade considerando diferentes perfis e realidades das mulheres (negras, periféricas, mães, migrantes, etc)? As oportunidades são as mesmas?

– De que forma a organização incorpora as questões de gênero em suas práticas internas e externas?

– Que estereótipos de gênero estamos mantendo ou reforçando?

* Este texto foi originalmente publicado no Portal do Impacto.

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