Sobre a importância da representatividade feminina e os desafios para alcançá-la

Não é novidade que as mulheres estão sub representadas em espaços de poder. No ano de 2019, o estudo Estatísticas de Gênero do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que 37,4% dos cargos gerenciais eram ocupados por mulheres, apesar delas possuírem mais anos de estudo. A mesma pesquisa aponta que as mulheres são mais instruídas que os homens. Então a menor inserção no mercado de trabalho não se deve à instrução.

Mas por que representatividade importa?

As pessoas são movidas para seus objetivos levando em conta suas referências: pessoas com as quais elas se identificam e se sentem representadas.

A representatividade feminina alimenta o bem-estar e autoestima das mulheres por todos os âmbitos, seja em classe, cor ou orientação sexual. É sobre sentir-se capaz de também estar naquele mesmo lugar, em que outros sinônimos de referência também estiveram.

Para mudar, é preciso que a sociedade inteira se movimente para entender que precisamos aproveitar todo o potencial que existe no mundo. E isso significa incluir as mulheres em todas as esferas.

No entanto, dentro das organizações, as mulheres raramente encontram identificação com essas referências na liderança. Há poucas mulheres ou poucas mulheres-mães, mulheres-negras, mulheres-trans. No caso do Brasil a situação é mais crítica. Um estudo da Deloitte (Mulheres no Conselho), identificou que apenas 8,6% dos cargos de liderança no Brasil são de mulheres; enquanto isso, no mundo todo, a proporção é de 16,9%.

Então quais seriam as causas dessa desigualdade?

A perspectiva excludente começa nas áreas de formação das profissionais: falta representatividade das mulheres em graduações de Ciências Exatas ou Tecnologia, por exemplo. De acordo com o IBGE, em 2019, a parcela feminina nos cursos de Engenharia correspondia a somente 21,6% das matrículas nas graduações. Para Computação, Tecnologias da Informação e Comunicação, a representatividade é ainda menor: somente 13,3% das matrículas são de mulheres.

Mas essas escolhas não acontecem por acaso. A estrutura dos papéis de gênero reforça o lugar da mulher principalmente ocupando a cadeira ao cuidado. A participação feminina em graduações de bem-estar é de ampla maioria. A graduação de Serviço Social, por exemplo, obteve o total de 88,3% matrículas femininas em 2019.

Papéis construídos na infância e reforçados na vida adulta

A partir da identificação de gêneros, a sociedade segue com uma segregação funcional do homem e da mulher. Há um papel a ser cumprido por cada um. As meninas, desde pequenas, são imersas em um espectro de delicadeza, vulnerabilidade e doçura.

Cabem a elas, portanto, internalizarem esses conceitos por meio de representações infantis, dentre estas, a brincadeira. As bonecas para brincar de cuidar de bebês, as cozinhas para já ir entendendo que vai precisar cozinhar para a família, as maquiagens porque é preciso estar sempre bonita e arrumada. As crianças vão se familiarizando com o que a sociedade espera delas – e que exigirá.

Quando adultos, homens e mulheres entendem a responsabilidade do lar e de cuidados com as crianças cabe às mulheres. E na ausência ou falta de políticas públicas de cuidado, as mães tornam-se reféns de responsabilidades que cabem não só a ela, mas à sociedade como um todo. André Simões, pesquisador do IBGE, apontou que:

“existe uma relação entre uma menor participação das mulheres no mercado de trabalho e uma maior participação das mulheres no trabalho reprodutivo, os afazeres domésticos e cuidados de pessoas. Isso está relacionado a políticas públicas, políticas de expansão de creches, para que essas crianças possam ir para a creche”.

Ao observar em uma perspectiva de raça e classe, o cenário é ainda mais grave. Enquanto só 49,7% das mães negras com filhos de até 3 anos estavam trabalhando, a parcela de mães brancas na mesma situação era de 62,6%. Já sabemos o quanto tais fatores impactam negativamente o Brasil quando se discute sobre equidade de gênero.

Uma visão de mercado para justificar essa lógica

As práticas de Ambiental, Social e Governança (sigla ESG, em inglês) têm sido discutidas no meio dos negócios como forte tendência para esse ano. Como uma métrica, a ASG determina se uma empresa se posiciona positivamente perante as questões que importam para além do lucro. E a certificação é uma chave para atrair aporte de investidores, além de contribuir para a mitigação de riscos e crises de imagem.

Portanto, é interessante também para os negócios que as empresas revisitem seus processos e planejamentos estratégicos dentro da atuação feminina no espaço corporativo. Mas é essencial que a partir disso, transforem seus discursos em aliados de transformação real.

Representatividade para mexer nas estruturas

Caso as organizações não movam, de maneira eloquente, uma força disruptiva contra a dupla jornada feminina em busca de dias melhores, os ambientes organizacionais seguirão sem a menor diversidade. A presença das mulheres no topo da pirâmide tem a ver, portanto, com o desejo de rever a própria existência de um topo da pirâmide e de mudar as estruturas que a sustentam.

Sem o avanço dentro dessas perspectivas, o intuito de colaborar com o aumento da representatividade torna-se um objetivo somente rentável, voltado para os resultados financeiros, sem impulsionar a percepção de valor pela sociedade para com as mulheres pretas, brancas, ricas ou periféricas, mães ou sem filhos.

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